Internacional
Brasil busca voo mais curto para o Senegal visando aumentar turismo e comércio
O governo brasileiro está empenhado em reduzir o tempo de voo entre o Brasil e a capital do Senegal, Dacar, localizada na Costa Oeste da África. Essa iniciativa visa beneficiar o comércio e o turismo entre as duas nações, além de facilitar a conexão com países vizinhos.
Atualmente, não existem voos diretos disponíveis para brasileiros e senegaleses. Em algumas situações, é necessário fazer uma escala em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, antes de chegar a Dacar, o que aumenta significativamente o tempo de viagem.
Outra alternativa são os hubs (pontos de distribuição de voos) localizados em aeroportos europeus ou em cidades africanas mais distantes da América do Sul.
Em linha reta, a distância entre Natal, no Rio Grande do Norte, e o Senegal é de 2,9 mil quilômetros (km). Em comparação, a distância da capital potiguar até Lisboa é quase o dobro, e para Dubai, quase quatro vezes mais.
A informação sobre a intenção do Brasil de encurtar a duração do voo para o Senegal foi compartilhada com apela embaixadora do Brasil no Senegal, Daniella Xavier.
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“Temos que continuar a trabalhar nesse sentido, pois não é lógico que tenhamos que ir à Europa para vencer menos de 3 mil km! Imaginem a redução dos tempos de voo e nos custos também em benefício dos demais países da África Ocidental, da América Latina e do Caribe”, afirmou.
A embaixadora participou do Fórum Internacional de Dacar sobre a Paz e Segurança na África, realizado na cidade, que possui quase 4 milhões de habitantes, nos dias 20 e 21 de abril.
Para a diplomata, é necessário romper um círculo vicioso: “o comércio e o turismo não têm escala por falta de conexões; e as conexões não se fazem por falta de escala”.
Daniella Xavier mencionou que se reuniu recentemente com o ministro das Infraestruturas e dos Transportes do Senegal, Yankhoba Diémé, e com a direção da companhia aérea estatal senegalesa Air Senegal.
A embaixadora destacou a importância de fomentar entendimentos entre empresas brasileiras – que são todas privadas – e a Air Senegal, ou até mesmo com países africanos, como Marrocos, Etiópia e Turquia, para desenvolver cooperação de codeshare, onde uma empresa vende passagens para os voos da outra e vice-versa.
Ao enfatizar a “excelente relação” entre Brasil e Senegal, Daniella Xavier recordou que o Senegal, que conquistou sua independência da França no início da década de 1960, possui laços históricos profundos com o Brasil, originados pelo tráfico de escravizados.
A Ilha de Gorée, localizada no Senegal, é um ponto significativo do tráfico de negros para as Américas.
A embaixada brasileira foi inaugurada em Dacar em 1961, e dois anos depois, houve a reciprocidade, com a representação diplomática do Senegal em Brasília, que é a única do país africano na América do Sul.
Em 2025, o comércio entre Brasil e Senegal, que possui quase 19 milhões de habitantes, atingiu US$ 386,1 milhões, com um saldo de US$ 370,8 milhões favorável ao Brasil, conforme dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços. Isso indica que o Brasil exporta significativamente mais do que importa.
“O Senegal ainda exporta pouco para o Brasil. Poderia, por exemplo, investir na exportação de amendoim e derivados das flores do nenúfar [lírios-d’água], como produtos gourmet, assim como tecidos, produtos artesanais, entre outros”, avaliou a embaixadora.
Ela informou àque o comércio entre os países tende a aumentar e que está trabalhando para expandir os investimentos. No ano passado, uma missão levou 50 empresários brasileiros ao Senegal.
Um dos investimentos mencionados foi o anúncio, em outubro do ano passado, da criação da primeira indústria de genética agrícola no Senegal, com o objetivo de produzir 30 milhões de ovos e 400 mil aves reprodutoras. O investimento inicial será de US$ 20 milhões.
A iniciativa é da empresa brasileira West Aves, em parceria com empresas africanas. A expectativa é a criação de 300 empregos diretos e 1 mil indiretos, além da transferência de tecnologia para o Senegal.
“Caso bem-sucedido, o projeto poderá permitir a autossuficiência total do país na produção de aves e a redução de 20% de seus custos para o consumidor final”, sustentou.
Além disso, há discussões sobre a possibilidade de o Brasil levar ao Senegal tecnologias nas áreas de agropecuária, programa de merenda escolar e defesa.
Para a representante brasileira, a relação entre os países se tornou mais dinâmica. “Diante de um cenário internacional conturbado, é preciso ampliar a coordenação política entre países que coincidem em grande parte em suas posições multilaterais e encontrar alternativas comerciais”, concluiu.
Quando se trata de interesses multilaterais, um exemplo concreto é a defesa de reformas em organismos internacionais, como no Conselho de Segurança (CS) da Organização das Nações Unidas (ONU), um pleito antigo do Brasil e dos países africanos.
Atualmente, apenas cinco países têm presença permanente no conselho e poder de veto (Rússia, Estados Unidos, China, Reino Unido e França), nenhum deles da América do Sul ou da África. Entre as funções do CS estão a imposição de sanções internacionais e a autorização de intervenções militares.
Além disso, a embaixadora do Senegal no Brasil, Marie Gnama Bassene, que também participou do Fórum Internacional de Dacar sobre a Paz e Segurança na África, destacou que seu país desempenha um papel importante na construção da confiança, no fortalecimento da cooperação e na prevenção de conflitos por meio do diálogo, “com o objetivo de promover e defender a paz em sua região e em nível continental”.
Marie Gnama Bassene ressaltou que o Senegal tem uma “longa tradição de contribuições eficazes” para as operações de paz da ONU e da Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental (Cedeao), que reúne 12 países, e associou o país africano a uma tradição do Brasil.
“Ao observar a situação do Brasil e suas relações com seus vizinhos na América do Sul, não posso deixar de perceber muitas semelhanças com o Senegal”, afirmou à.
“Nossos dois países compartilham o mesmo compromisso com o multilateralismo, a diplomacia, a paz e a segurança, bem como a prevenção e a resolução pacífica de conflitos por meio do diálogo e da consulta”, completou.
De 2026 a 2030, o Senegal presidirá a Comissão da Cedeao, que é o braço executivo da comunidade. O país também é um dos integrantes da Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul (Zopacas), uma aliança com mais de 20 países, a maioria africanos, voltada para a manutenção da parte Sul do Oceano Atlântico livre de guerras e disputas geopolíticas.
Recentemente, o Brasil assumiu a liderança do grupo em um evento realizado no Rio de Janeiro.
A embaixadora senegalesa descreveu a parceria entre seu país e o Brasil como “forte, estável e duradoura, marcada por quase 65 anos de relações diplomáticas, com visões convergentes sobre a maioria das questões internacionais”.
Apesar de o fórum ter a África em seu nome, o encontro foi aberto a países de fora do continente, com a presença de chefes de Estado, ministros e diplomatas de 38 países, sendo 18 deles africanos.
Ao conceder uma entrevista ao final do evento, o ministro da Integração Africana, dos Negócios Estrangeiros e dos Senegaleses no Exterior, Cheikh Niang, foi questionado pelasobre a possibilidade de o Brasil, com sua profunda herança africana, contribuir para a segurança e a paz no continente.
“Acho que o simples fato de participar de uma discussão, apresentar ideias e fazer propostas já é útil”, respondeu.
“Portanto, desse ponto de vista, a participação não só é desejada, como também é, para nós, de grande utilidade para a qualidade do trabalho que realizamos”, completou o ministro.
*Repórter viajou a convite do Ministério da Integração Africana, Negócios Estrangeiros e Senegaleses no Estrangeiro.
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